Quem alimenta o Brasil: agricultura familiar ou agronegócio? Merlong Solano cita 80% da mandioca e 70% do feijão

 Quem alimenta o Brasil: agricultura familiar ou agronegócio? Merlong Solano cita 80% da mandioca e 70% do feijão

Merlong Solano (PT-PI) no Plenário da Câmara em 05/11/2026. Vídeo: Câmara dos Deputados (CC BY 4.0)

O deputado Merlong Solano (PT-PI) usou a tribuna do Plenário da Câmara nesta quinta-feira (5) para defender a importância econômica e social da agricultura familiar. No discurso, citou números do Censo Agropecuário segundo os quais o segmento responde por fatias majoritárias de alimentos da mesa brasileira — e deixou no ar o embate que divide especialistas e entidades: quem de fato alimenta o Brasil, a agricultura familiar ou o agronegócio?

O que disse o deputado

Solano afirmou que são quase 4 milhões de estabelecimentos rurais familiares, que ocupam mais de 10 milhões de pessoas — cerca de 70% da mão de obra da agropecuária — e que, com apenas cerca de 23% da área, o setor responde por cerca de 26% do valor bruto da produção agropecuária.

Sobre a comida do dia a dia, destacou participação predominante em itens da tradição alimentar: cerca de 80% da mandioca, 70% do feijão, 50% do leite, 60% da carne suína, cerca de 70% dos caprinos e cerca de 60% da horticultura. “A agricultura familiar ajuda a produzir alimentos, gera mais empregos e faz isso distribuindo renda”, disse, ligando o tema à concentração de renda e riqueza.

O parlamentar também elogiou políticas do atual governo (Ministério do Desenvolvimento Agrário, Conab, Pronaf e entrega de tratores) e cobrou mais assistência técnica, qualificação e acesso a mercados para associações e cooperativas. Pediu divulgação do pronunciamento pelos canais da Câmara e pela Voz do Brasil.

Os números e a controvérsia

Os percentuais por produto citados por Solano batem com leituras amplamente usadas a partir do Censo Agropecuário 2017 (IBGE) e de sínteses da Embrapa e de entidades do setor: a agricultura familiar concentra fatias altas em mandioca, feijão, leite e hortaliças, e emprega a maior parte das pessoas ocupadas no campo.

Já a frase popular de que a agricultura familiar produziria “70% dos alimentos consumidos no Brasil” é contestada. Análise do Insper Agro in Data aponta que a cifra não tem origem em estudo consolidado e que, pelos censos de 2006 e 2017, a participação familiar no consumo alimentar total é menor do que o slogan sugere — ainda que o segmento seja crucial em vários itens da cesta básica. Do outro lado, representantes do agronegócio e da agropecuária empresarial ressaltam o peso das commodities (soja, milho, carnes, café) nas exportações, no PIB agropecuário e no abastecimento de grãos e proteínas em escala, e argumentam que familiar e empresarial são complementares, não rivais.

Familiar ou agronegócio?

O debate “quem alimenta o Brasil” mistura duas perguntas: quem produz o que vai ao prato e quem gera a maior fatia da riqueza e das exportações do agro. Nos itens de tradição alimentar citados por Solano, a agricultura familiar costuma liderar; no valor da produção e nas cadeias exportadoras, o agronegócio empresarial concentra participação bem maior. A escolha do indicador muda a resposta — e é essa disputa que o discurso no Plenário reacende.

Com informações da Câmara dos Deputados (vídeo e notas taquigráficas da sessão, CC BY 4.0), IBGE/Censo Agropecuário 2017, Embrapa e Insper Agro in Data.

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