Análise: floresta em pé também é economia — o que o estudo da FGV sobre desmatamento evitado mostra
Floresta amazônica (imagem de arquivo, 2024). Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil – CC BY 3.0 BR
Este é um texto de análise, baseado em dados públicos. As interpretações são da redação do Cidade Agora.
O debate sobre desmatamento costuma ser apresentado como uma escolha entre preservar e produzir. Um estudo divulgado nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV), ajuda a mostrar por que essa oposição é, em boa medida, falsa: a floresta em pé tem valor econômico mensurável.
Os números
Segundo o economista Bráulio Borges, autor do estudo, a redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado desde 2023 pode ter evitado cerca de R$ 1,16 trilhão em danos climáticos para a economia mundial, de acordo com reportagem da Agência Brasil. Desse total, entre R$ 67 bilhões e R$ 192 bilhões corresponderiam a ganhos para o próprio Brasil. No cenário mais conservador, o benefício global seria de R$ 621 bilhões; no mais otimista, de R$ 9,8 trilhões.
A conta compara o período 2019–2022, quando 78,9 mil km² foram desmatados nos dois biomas, com 2023–2026, quando a área caiu para 56,7 mil km². A diferença, cerca de 22,3 mil km², é um pouco maior que o estado de Sergipe. Isso teria evitado 1,49 bilhão de toneladas de emissões de gases de efeito estufa, valoradas pelo chamado Custo Social do Carbono (US$ 145 por tonelada no cenário central).
Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados no dia 16, reforçam a tendência: de agosto de 2025 a julho de 2026, o desmatamento caiu 41,8% na Amazônia, para 3.335 km² (o menor desde 1998), e 23,8% no Cerrado, para 5.516,69 km² (o menor desde 2001).
O que a conta não inclui
O ponto mais relevante talvez esteja no que ficou de fora. O próprio autor ressalta que a estimativa não incorpora o efeito da floresta sobre o regime de chuvas, os chamados “rios voadores”, que levam umidade da Amazônia ao Centro-Oeste, ao Sudeste e ao Sul. Também não entram geração hidrelétrica, navegação fluvial, redução de incêndios, biodiversidade e abastecimento urbano. “O Sistema Cantareira, em São Paulo, está na rota dos rios voadores”, lembra o estudo.
“A redução dos desmatamentos não é incompatível com a expansão da produção agropecuária, até porque o próprio agronegócio é um dos principais beneficiários da chuva gerada pela floresta”, observa Borges. Diferentemente das emissões evitadas, o ganho com as chuvas se repete todos os anos enquanto a floresta permanecer em pé.
Por que isso importa
Estimativas como essa dependem de premissas — o valor atribuído ao carbono varia muito entre estudos, como mostra a distância entre os cenários. Ainda assim, elas oferecem uma linguagem comum para um debate que costuma ser travado em termos ideológicos. Para cidades do interior que dependem da agropecuária e da água, como as do noroeste paulista, a mensagem é direta: o que acontece na floresta também chega à torneira e à lavoura.
Fontes: Agência Brasil; Ibre/FGV; Inpe.

