História de Birigui: da Chave da Noroeste à capital do calçado infantil

 História de Birigui: da Chave da Noroeste à capital do calçado infantil

Praça Dr. Gama, marco central de Birigui (2014). Foto: Alexandre Moreira/Governo do Estado de São Paulo – CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

Birigui, no Noroeste Paulista, é hoje conhecida em todo o país como a capital do calçado infantil. Mas a história da cidade começa bem antes da primeira fábrica de sapatos: começa numa clareira à beira dos trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, com um imigrante português, 400 alqueires de mata e dois vagões de trem usados como casa. Nesta primeira reportagem da série História das Cidades, o Cidade Agora reconstitui, com base em documentos oficiais e pesquisas acadêmicas, como Birigui nasceu, cresceu e se emancipou.

De onde vem o nome Birigui

O nome da cidade tem origem indígena. Segundo o histórico do município publicado pelo IBGE, os indígenas usavam a palavra com o significado de “mosca que sempre vem”, para designar um minúsculo mosquito hematófago muito comum na região. A Wikipédia em português registra a origem no tupi mberu’wi, “mosca pequena”.

O nome já existia antes da cidade: era assim que os trabalhadores da ferrovia chamavam o ponto de parada no meio da mata, e o fundador decidiu mantê-lo. A Câmara Municipal lembra ainda que a grafia tradicional é Birigüi, com trema, forma que aparece em leis e documentos antigos.

Origens: a “Chave de Birigui” e a ferrovia Noroeste

Até o início do século 20, todo o oeste do atual estado de São Paulo era território tradicional dos indígenas caingangues (também chamados de coroados). A ocupação da região pelos não indígenas acompanhou a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), que avançava de Bauru em direção ao Mato Grosso.

De acordo com o IBGE, Birigui começou como uma “chave” (um desvio ferroviário) numa clareira situada entre os quilômetros 259 e 261 da linha, que em 1908 passou a ser ponto de parada das locomotivas. Segundo a Câmara Municipal, nos primeiros tempos um trem da Noroeste parava ali três vezes por semana, enfrentando com frequência ataques dos indígenas.

Primeira estação de Bauru da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil
Primeira estação de Bauru, ponto de partida da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que deu origem a Birigui. Foto: Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, publicada em “Um trem corre para o Oeste” (Fernando de Azevedo, 1950) – domínio público, via Wikimedia Commons

A fundação: 7 de dezembro de 1911

Quem foi Nicolau da Silva Nunes

O fundador de Birigui, Nicolau da Silva Nunes, era um imigrante português de Trás-os-Montes. O IBGE cita como sua terra natal a freguesia de Moutamorta; pesquisa do professor Marco Aurélio Barbosa de Souza, baseada na biografia escrita por N. de M. da Cunha (1997), registra que ele nasceu em 30 de outubro de 1880, na aldeia de Silvares, e chegou ao Brasil em 8 de agosto de 1892, aos 12 anos, para trabalhar no comércio de um tio no Rio de Janeiro.

Depois de passar pela Bahia e por Minas Gerais, Nicolau se estabeleceu em Sales de Oliveira, no interior paulista, onde trabalhou como empreiteiro e abriu um armazém. Foi lá que, segundo a mesma pesquisa, leu no jornal O Estado de S. Paulo um artigo sobre a riqueza das terras da Zona Noroeste e decidiu conhecê-las.

A compra das terras

Encantado com a fertilidade do solo, Nicolau comprou do coronel Manoel Bento da Cruz 400 alqueires de terras na chamada “Chave de Biriguy”. A escritura foi assinada em 12 de novembro de 1911, em Penápolis, pelo valor de 10 contos de réis (25 mil-réis por alqueire). Do total, 200 alqueires ficaram com Nicolau e 100 alqueires com cada um de seus representados, Antônio Gonçalves Torres e Afonso Garcia Franco. De volta a Sales de Oliveira, ele colocou lotes à venda entre parentes e conhecidos.

A chegada e os primeiros moradores

Na tarde de 7 de dezembro de 1911, data oficial da fundação, Nicolau chegou à chave acompanhado de Francisco Galindo de Castro, de Francisco Martins Archilla (conhecido como Francisco Romero) e do empregado Manoel Inácio. A primeira moradia do grupo foram dois vagões de trem cedidos pela Noroeste e trazidos de Bauru, que serviam de abrigo contra o tempo e de proteção contra os ataques dos caingangues. Segundo o IBGE, morar nos vagões também foi uma forma de o fundador demonstrar segurança aos compradores de terras.

Dona Antônia Real Dias, esposa de Galindo de Castro, é lembrada como a primeira mulher a morar em Birigui. Um mês depois, com a chegada de várias famílias, compradores de terras e agregados, o vilarejo começou a crescer, tendo Santo Ambrósio como padroeiro. A primeira casa, de taipa, foi erguida no encontro das atuais ruas Silvares (antiga Tietê) e dos Fundadores. Entre os pioneiros citados pela Câmara e pelo IBGE estão Lucas Scarpin, Antônio Simões, Faustino Segura, Ricardo Del Nery, João Galo e França Contel.

A colonização e a chegada dos imigrantes

O crescimento rápido do povoado está ligado a uma empresa: a Companhia de Terras, Madeiras e Colonização de São Paulo (The São Paulo Land, Lumber & Colonisation Company), fundada em 17 de outubro de 1912 por dez sócios, entre eles Manoel Bento da Cruz, o escocês Roberto Clark e o inglês James Mellor. Segundo a Câmara Municipal, a fundação da companhia ocorreu depois que Rondon conseguiu, em 1912, a paz com os caingangues.

A companhia abriu as primeiras estradas de rodagem da região, com 700 quilômetros, e dividiu as terras em lotes de 10 a 1.000 alqueires, vendidos com entrada de 30% e parcelas em três anos. Os anúncios eram publicados em italiano, espanhol, alemão, japonês e outras línguas. O geógrafo Pierre Monbeig, citado na pesquisa de Souza, registrou que a propaganda feita nas lavouras de Ribeirão Preto levou a uma “emigração em massa” para Birigui: em cinco anos, mais de três mil famílias se instalaram ali.

A Câmara relata que o povoado tinha 30 ou 40 casas, quase todas de pau a pique, e que dois anos depois já eram mais de 200, a maioria de tijolos e telhas, com cerca de mil habitantes. Em 1913, a planta da futura cidade já era traçada por iniciativa da Prefeitura de Bauru.

Italianos, espanhóis, portugueses e japoneses

Os primeiros imigrantes japoneses chegaram entre junho e agosto de 1915: 31 pessoas de seis famílias, vindas das províncias de Saga e Kagoshima, que se instalaram no bairro Água Limpa Baixa, a 18 quilômetros da estação. Na década de 1920, outra empresa britânica, a Companhia Brasileira de Plantação (Brazilian Plantation Company), incentivou o cultivo de algodão e ampliou a vinda de japoneses. A concentração de famílias japonesas deu origem à “Nipolândia”, atual cidade de Bilac.

Em 1925, segundo dados citados por Ercilla e Pinheiro (1928), o município tinha 26.220 moradores, dos quais 9% eram italianos, 3,5% espanhóis, 1,8% japoneses e 1,5% portugueses.

O ciclo do café

Com a derrubada das matas vieram as lavouras. Segundo a Câmara Municipal, cinco ou seis anos depois da fundação a cafeicultura já se destacava, principalmente nas fazendas Água Branca e Silvares, que somavam 700 mil cafeeiros. No auge da produção, em 1927, Birigui embarcou pela estação da Noroeste mais de 150 mil sacas de café, ficando atrás, na região, apenas de Pirajuí e Lins.

A modernização veio junto: telégrafo e telefone chegaram pouco depois de 1914 e 1917, respectivamente, e a cidade ganhou energia elétrica com uma primeira unidade geradora de 1.000 cavalos-vapor, que também iluminava Coroados, Araçatuba, Calmon, Legru e Glicério. Novas unidades foram instaladas em 1926 (1.000 c.v.) e 1927 (2.000 c.v.).

Distrito, emancipação e comarca

A primeira conquista administrativa veio em 1914: a Lei Estadual nº 1.426, de 10 de novembro de 1914, criou o distrito de paz de Birigui, subordinado ao município de Penápolis. Um dos defensores da medida foi James Mellor, então vereador em Penápolis.

Em junho de 1919, uma comissão formada por James Mellor, Nicolau da Silva Nunes, Anor Garcia, Gentil Pinto Ferreira Coelho e Mário de Souza Campos procurou o coronel Manoel Bento da Cruz para tratar da emancipação. No ano seguinte, por indicação do diretório político de Penápolis, o deputado Luís de Toledo Piza Sobrinho apresentou o projeto nº 34, propondo a criação do município.

A emancipação veio com a Lei Estadual nº 1.811, de 8 de dezembro de 1921, promulgada por Washington Luís, então presidente do estado de São Paulo, apenas dez anos depois da chegada dos fundadores. A primeira Câmara Municipal foi instalada em 19 de fevereiro de 1922, com Edgard Ájax dos Reis na presidência; os vereadores elegeram Archibaldo Clark como prefeito e Osório Hilário Pontes como vice.

Em 1934, pelo Decreto nº 6.447, de 19 de maio, Birigui tornou-se sede de comarca.

Solenidade de instalação da Comarca de Birigui em 1934
Instalação da Comarca de Birigui, em 1934; ao centro, o prefeito Gumercindo de Paiva Castro. Foto: autor desconhecido/acervo do Museu Histórico Municipal – domínio público, via Wikimedia Commons

Birigui em 1932

Fotos do acervo do Museu Histórico Municipal mostram a participação da cidade na Revolução Constitucionalista de 1932: o “Batalhão Biriguy”, ligado ao MMDC, perfilado na rua 7 de Dezembro, e o embarque da tropa em um trem da Noroeste.

Batalhão Biriguy perfilado na rua 7 de Dezembro em 1932
Batalhão Biriguy na rua 7 de Dezembro, em 1932. Foto: autor desconhecido/acervo do Museu Histórico Municipal – domínio público, via Wikimedia Commons
Multidão acompanha embarque de tropa em trem da Noroeste em Birigui, 1932
Embarque da tropa de Birigui em trem da Noroeste, em 1932. Foto: autor desconhecido/acervo do Museu Histórico Municipal – domínio público, via Wikimedia Commons

Por que “Cidade Pérola”

Além de Birigui, a cidade tem um apelido antigo: “Cidade Pérola”. Segundo a Câmara Municipal e a Prefeitura, ele surgiu em 1934, quando um jornalista de São Paulo visitou a cidade e escreveu uma crônica sobre o aniversário de Roberto Clark com a expressão “desta Pérola da Zona Noroeste”. Segundo a Câmara, o texto saiu no jornal biriguiense O Maribondo.

Roberto William Clark, nascido na Escócia em 13 de agosto de 1854, foi diretor técnico e depois presidente da Companhia de Terras, formou as fazendas Água Branca e Veado e doou terrenos para o templo metodista, para o Instituto Noroeste e para o estádio que leva o seu nome. Morreu em 1938.

Igreja matriz de Birigui em reforma, 1939
Reforma da Igreja Matriz de Birigui, em 1939. Foto: autor desconhecido/acervo do Museu Histórico Municipal – domínio público, via Wikimedia Commons

Da lavoura ao calçado infantil

A virada econômica que deu fama nacional a Birigui começou em meados do século 20. Os primeiros sapatos da cidade foram feitos em 1941, na Selaria e Sapataria Noroeste, da família Tokunaga, e no fim da década de 1940 Avak Bedouian instalou a Calçados Birigüiense, segundo pesquisas acadêmicas da Unicamp e da FEATA.

O marco do calçado infantil é 1958, quando os irmãos Antônio e Francisco Ramos de Assumpção abriram a Ramos & Assumpção, primeira empresa especializada no segmento, com 10 empregados e produção inicial de 20 pares por dia, segundo o Museu Histórico de Birigui. Mudanças societárias na empresa deram origem a duas marcas importantes da história local, a Popi e a Rassum (Kiuty).

A especialização se consolidou nos anos 1960. Em 1969, o setor já produzia mais de 1,5 milhão de pares por ano, com cerca de 18 empresas e 786 trabalhadores. Na década de 1970 vieram novas fábricas e fornecedores, e, segundo o livro comemorativo dos 40 anos do Sinbi, entidade do setor calçadista local, o auge veio nos anos 1980, com mais de 200 unidades. Foi assim que Birigui passou a ser chamada de “Capital Brasileira do Calçado Infantil”.

A Wikipédia registra que, em 2006, o polo tinha 459 indústrias de calçados e produziu cerca de 57 milhões de pares, 85% deles para o público infantil, e que o setor empregava cerca de 18 mil trabalhadores. Um monumento na cidade homenageia a pespontadeira, profissional que costura as partes do calçado.

Monumento à Pespontadeira em Birigui
Monumento à Pespontadeira, homenagem às trabalhadoras do calçado. Foto: Barão de Itararé – CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Curiosidades

  • Biribol: o esporte aquático, jogado numa piscina especial de 4 m por 8 m, com rede, foi criado em Birigui pelo professor Dario Miguel Pedro.
  • Futebol: o Bandeirante Esporte Clube foi fundado em 11 de março de 1923 e disputou a primeira divisão do Campeonato Paulista em 1987.
  • O fundador viu a cidade crescer: em 1961, Nicolau da Silva Nunes participou da inauguração da Avenida João Cernach, ao lado do prefeito Renato Cordeiro, como mostra uma foto do acervo municipal.
  • Hoje: segundo o Censo 2022 do IBGE, Birigui tem 118.979 habitantes e área de cerca de 530 km², cortada pela Rodovia Marechal Rondon (SP-300) e pela antiga linha da Noroeste.
Inauguração da Avenida João Cernach em 1961 com o fundador Nicolau da Silva Nunes
Inauguração da Avenida João Cernach, em 1961, com o prefeito Renato Cordeiro, a primeira-dama Christina Cordeiro, o fundador Nicolau da Silva Nunes e Mathias Cernach. Foto: autor desconhecido/acervo do Museu Histórico Municipal – domínio público, via Wikimedia Commons

Linha do tempo

  • 1908: a chave entre os km 259 e 261 da Noroeste vira ponto de parada das locomotivas.
  • 12/11/1911: Nicolau da Silva Nunes compra 400 alqueires de Manoel Bento da Cruz, em escritura assinada em Penápolis.
  • 07/12/1911: chegada dos fundadores à Chave de Birigui (data oficial de fundação).
  • 1912: paz com os caingangues; em 17 de outubro é fundada a Companhia de Terras, Madeiras e Colonização de São Paulo.
  • 1913: é traçada a planta da cidade.
  • 10/11/1914: criação do distrito de paz (Lei nº 1.426), subordinado a Penápolis.
  • 1915: chegam as primeiras famílias japonesas.
  • 08/12/1921: emancipação (Lei nº 1.811).
  • 19/02/1922: instalação da primeira Câmara Municipal; Archibaldo Clark é eleito prefeito.
  • 1927: auge do café, com mais de 150 mil sacas embarcadas.
  • 19/05/1934: Birigui vira comarca (Decreto nº 6.447); surge o apelido “Cidade Pérola”.
  • 1941: primeiros sapatos produzidos na cidade.
  • 1958: abre a Ramos & Assumpção, primeira fábrica de calçados infantis.
  • 1969: produção passa de 1,5 milhão de pares por ano.
  • 2022: Censo do IBGE registra 118.979 habitantes.

Fontes

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