História de Araçatuba: do acampamento da Noroeste à Capital do Boi Gordo
Imagem de arquivo (2022): Praça Rui Barbosa, praça central e histórica de Araçatuba. Foto: Barão de Itararé – CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Araçatuba, no Noroeste Paulista, é hoje uma cidade de 200.124 habitantes (Censo 2022 do IBGE), sede de região administrativa e polo de serviços, saúde e educação. Mas a história da antiga “Capital do Boi Gordo” começa em plena mata, com um acampamento de trabalhadores da ferrovia e um vagão de trem que fazia as vezes de estação. Nesta reportagem da série História das Cidades, o Cidade Agora reconstitui, com base em registros oficiais, como Araçatuba nasceu, cresceu e se transformou ao longo de mais de um século.
De onde vem o nome Araçatuba
A explicação mais aceita para o nome é indígena. Segundo a Wikipédia em português, a palavra vem do tupi arasá (araçá, uma fruta nativa) e tyba (ajuntamento), ou seja, “ajuntamento de araçás”, uma referência à abundância da planta na região. Há outra hipótese, segundo a qual o nome seria o da filha de um cacique caingangue, mas estudiosos citados pela enciclopédia afirmam que, pela etimologia, a palavra não pode ser um nome próprio.
Antes dos trilhos: a terra dos caingangues
Muito antes da chegada da ferrovia, a região entre os rios Tietê, Paraná e Paranapanema era território indígena. Segundo a Prefeitura de Araçatuba, ali viviam os caingangues, ao lado dos coroados. De acordo com a mesma fonte, calcula-se que houvesse cerca de 1,5 mil indígenas na região na época da construção da estrada de ferro; quando os trilhos chegaram às barrancas do rio Paraná, restavam aproximadamente 200.
A ocupação não foi pacífica. A Wikipédia registra que o avanço da frente colonizadora provocou o deslocamento e o extermínio dos povos nativos, que reagiam aos ataques. Um dos episódios mais lembrados é o de 1916, quando a equipe do agrimensor Cristiano Olsen foi morta durante o levantamento de terras na região do rio Feio.
A Noroeste e o acampamento do km 280
A origem de Araçatuba está diretamente ligada à Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), parte de uma política de interiorização do país e de ligação com outros países da América do Sul. Segundo o histórico do município publicado pelo IBGE, as obras começaram em 15 de novembro de 1904, com o trecho que ligava Bauru a Itapura, às margens do rio Paraná.
Em 2 de dezembro de 1908, os trilhos chegaram ao quilômetro 280, onde foi montado um acampamento. Um vagão deixado no local serviu provisoriamente como estação. “Deste acampamento nasceu a cidade de Araçatuba”, resume o IBGE. A Prefeitura descreve a cena: numa clareira, ergueram-se as primeiras moradas, ranchos simples cobertos de sapé. À direita da via férrea instalou-se Miguel Caputi; à esquerda, Vicente Franco ou Machado Melo. A data é considerada a da fundação do patrimônio e é comemorada todos os anos.

Uma cidade sem fundador oficial
Ao contrário de muitas cidades vizinhas, Araçatuba não tem um fundador reconhecido oficialmente. A própria Prefeitura observa que o pequeno grupo da Noroeste “não tinha por objetivo fundar uma cidade”. Os primeiros moradores eram poucas famílias, alguns indígenas e, sobretudo, trabalhadores da ferrovia. A vida era dura: malária, leishmaniose, febre tifoide e doença de Chagas faziam parte do cotidiano.
A fertilidade da terra logo atraiu agricultores. O IBGE cita entre as famílias pioneiras os Viol, Pavan, Cela, Bertoli, Saran, Geraldi e Caputi. Em 1911, chegou de Jardinópolis uma caravana cujos integrantes compraram terras de Elísio de Castro Fonseca. Segundo a Prefeitura, o patrimônio inicial foi projetado pelo engenheiro alemão Gustavo Stamp, cortado em 1912 por Antenor Vasconcelos, com a derrubada da mata executada por Vicente Ribeiro Franco. A primeira capela, dedicada a Santo Onofre, foi erguida em 1915 por iniciativa de dona Maria Pacheco.
Italianos, japoneses e a emancipação
Os primeiros grandes contingentes de imigrantes foram de italianos, ligados à lavoura de café. Vieram depois portugueses e espanhóis, dedicados principalmente à pecuária, sírios no comércio e japoneses, que segundo a Prefeitura se estabeleceram na região em 1915. Em 1928, a comunidade japonesa inaugurou a Associação Cultural Nipo-Brasileira de Araçatuba, e um torii, o tradicional portal japonês, homenageia hoje esses imigrantes numa rotatória da cidade.
O povoado pertencia a Penápolis. Pela Lei Estadual nº 1.580, de 20 de dezembro de 1917, foi criado o distrito de Araçatuba. A emancipação veio com a Lei Estadual nº 1.812, de 8 de dezembro de 1921, e o município foi instalado em 19 de fevereiro de 1922. O primeiro intendente, Joaquim Pompeu de Toledo, tomou posse em 1º de janeiro de 1922. Segundo a Prefeitura, foi ele quem liderou o grupo que trabalhou pela criação do distrito e pela emancipação.
Em 1924, o prefeito Hermílio de Magalhães Pinto rebatizou a praça central, até então Praça Cristiano Olsen, como Praça Rui Barbosa, nome que ela mantém até hoje.
Do café ao boi gordo
A crise de 1929 levou muitos cafezais à falência. Na década de 1930, o algodão tornou-se a alternativa e atraiu indústrias de beneficiamento de óleo, tecidos e alimentos, como a Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro e as Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. No início dos anos 1950, pragas e o esgotamento do solo derrubaram o ciclo do algodão, e a pecuária de corte e engorda assumiu o posto de principal atividade econômica, rendendo à cidade o título de “Capital do Boi Gordo”.
Em 1952, o pecuarista Sebastião Ferreira Maia, o Tião Maia, implantou o Frigorífico T. Maia, apontado como a primeira unidade frigorífica do país construída integralmente com capital nacional. A partir dos anos 1970, a expansão da indústria sucroalcooleira reduziu o peso da pecuária, e o setor de serviços passou a crescer.

A “cidade do asfalto” e a modernização
No fim da década de 1930, na gestão do prefeito Aureliano Valadão Furquim, Araçatuba se tornou a primeira cidade do interior paulista a receber asfaltamento urbano, o que lhe rendeu o apelido de “cidade do asfalto”. Vieram em seguida a Biblioteca Municipal (1939), o Estádio Municipal Adhemar de Barros (1940), a Faculdade de Odontologia (1954), o Zoológico Municipal (1963) e a Avenida Brasília (1967).
Em 12 de dezembro de 1970, o Decreto Estadual nº 52.576 criou a Região Administrativa de Araçatuba. O território municipal também mudou: Guararapes e Valparaíso, antigos distritos, emanciparam-se em janeiro de 1937, e Santo Antônio do Aracanguá, o antigo Major Prado, tornou-se município pela Lei Estadual nº 7.644, de 30 de dezembro de 1991.
O fim dos trens no centro
A ferrovia que deu origem à cidade perdeu espaço com o tempo. Com o declínio do transporte ferroviário, a estação inaugurada em 1963 na região central foi desativada. O leito dos trilhos acabou removido para a construção da Avenida dos Araçás, em 1992. A memória ferroviária é preservada no Museu Ferroviário Moisés Joaquim Rodrigues.

Em 2019, Araçatuba foi classificada pelo Governo do Estado como Município de Interesse Turístico (MIT). No próximo dia 2 de dezembro, a cidade nascida de um acampamento no km 280 da Noroeste completa 118 anos.
Com informações de IBGE (histórico e formação administrativa do município), Prefeitura Municipal de Araçatuba (Secretaria de Turismo e galeria de ex-prefeitos), Wikipédia (verbetes “Araçatuba” e “História de Araçatuba”) e Wikimedia Commons.

