SUS e Einstein desenvolvem CUTIS-AI para identificar doenças de pele negligenciadas
Imagem de arquivo ilustrativa de exame de pele. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Uma parceria entre o Ministério da Saúde e o Einstein Hospital Israelita desenvolveu um sistema de inteligência artificial para apoiar profissionais da rede pública na triagem e identificação de doenças de pele negligenciadas. Batizado de CUTIS-AI, o projeto integra o Proadi-SUS e combina fotos das lesões com dados clínicos, epidemiológicos e sociodemográficos pensados para a realidade brasileira.
Entre as condições que a ferramenta busca ajudar a diferenciar estão esporotricose, leishmaniose cutânea, hanseníase, cromoblastomicose, lobomicose, tuberculose cutânea e lesões decorrentes de acidentes loxoscélicos — picadas de aranha-marrom. Segundo o Einstein e o Ministério, o aplicativo pode funcionar mesmo sem conexão com a internet, o que amplia o uso em unidades com acesso limitado à rede.
A taxa de acerto relatada nas avaliações é de cerca de 80%. O estudo já analisou aproximadamente 1.448 pacientes e reuniu mais de 4 mil imagens de lesões, coletadas em dez centros de referência nas cinco regiões do país. A proposta, reforçam os responsáveis, é de apoio à investigação clínica — não de substituição do diagnóstico feito pelo profissional de saúde.
Como a ferramenta funciona
O aplicativo foi desenhado a partir de entrevistas com profissionais da atenção básica. Um modelo analisa características das lesões nas fotos, como cor, formato e textura; outro avalia respostas a um questionário clínico. Os resultados são integrados para orientar a suspeita.
O questionário original tinha 254 perguntas. Para caber na rotina do atendimento, a equipe selecionou 12 questões apontadas pelos modelos como as mais relevantes para diferenciar as sete condições. Quando há internet, os dados podem ser enviados a um servidor central para apoiar o monitoramento epidemiológico.
“O CUTIS-AI foi criado para ampliar a capacidade de identificação dessas doenças, que ainda podem representar um desafio para os profissionais de saúde, especialmente em regiões com menor disponibilidade de especialistas”, afirmou Isabelle Carvalho, cientista de dados do Einstein Hospital Israelita, à Agência Brasil. A gerente de inovação em produtos digitais do Einstein, Lívia Maria de Oliveira, resumiu a lógica: a imagem sozinha conta uma história; com a informação clínica, a história fica mais completa.
Por que priorizar essas doenças
As doenças de pele negligenciadas costumam atingir populações em situação de vulnerabilidade, com mais dificuldade de chegar a especialistas. Dados do próprio projeto ilustram o perfil: entre os participantes cujas fotos alimentaram o modelo, 19,1% não tinham acesso a água tratada em casa.
O secretário de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Fabiano Geraldo Pimenta Junior, destacou a importância de uma base brasileira, com diferentes fototipos, regiões e condições de vida. Francisco Edilson, diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis, lembrou que a ferramenta prioriza doenças determinadas socialmente e populações mais vulnerabilizadas, alinhada ao princípio da equidade do SUS.
Quando pode chegar ao SUS
A tecnologia está em testes nos centros colaboradores, com avaliação prevista entre outubro e novembro de 2026. A transferência para o Ministério da Saúde está programada para dezembro. A expectativa é que, dependendo dos resultados e da análise regulatória — inclusive junto à Anvisa —, a ferramenta possa chegar ao SUS em 2027. Os desenvolvedores alertam que o modelo atual não garante acerto em um paciente específico e que o desempenho por tom de pele ainda precisa ser avaliado com mais detalhe.
Com informações de Agência Brasil e Estadão.

