História de Penápolis: de Santa Cruz do Avanhandava à “mãe” das cidades da Noroeste

 História de Penápolis: de Santa Cruz do Avanhandava à “mãe” das cidades da Noroeste

Imagem de arquivo (2023): Museu Histórico e Pedagógico “Memorialista Glaucia Maria de Castilho Muçouçah Brandão”, no antigo prédio da Prefeitura de Penápolis, de 1930. Foto: Barão de Itararé – CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Penápolis, no Noroeste Paulista, tem hoje 61.679 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE. A cidade às margens do Rio Tietê, vizinha de Araçatuba e Birigui, foi durante alguns anos a sede de um território gigantesco, que se estendia até o Rio Paraná, e é considerada a “mãe” de vários municípios da região. Nesta reportagem da série História das Cidades, o Cidade Agora reconstitui, com base em registros oficiais, como um patrimônio fundado por frades capuchinhos à espera dos trilhos da ferrovia virou cidade.

Os Campos do Avanhandava

Antes da chegada dos colonizadores, a região conhecida como “Campos do Avanhandava” e “Salto do Avanhandava”, no baixo Rio Tietê, era habitada pelos indígenas coroados, também chamados de caingangues, segundo o site de turismo da Prefeitura de Penápolis. A mesma fonte explica que o topônimo Ava-Nhandava significa “o índio que fala o dialeto nhandeva”, o que leva a crer que os nhandevas predominavam na área antes da chegada dos coroados.

A primeira presença do Estado brasileiro foi militar. Um decreto imperial de 1858 criou a Colônia Militar do Avanhandava, perto do Salto do Avanhandava, junto à estrada que ligava Piracicaba a Paranaíba (MS). A colônia, apelidada de “Degredo”, deveria proteger o povoamento e servir de retaguarda à Colônia de Itapura, na foz do Tietê, mas não prosperou. Hoje, o salto, a antiga colônia e a velha usina hidrelétrica do Avanhandava estão no fundo da represa da Usina de Nova Avanhandava.

O povoado que não vingou

Perto do quartel abandonado e do Ribeirão do Lageado surgiu uma primeira tentativa de povoação, dedicada a Nosso Senhor dos Passos. As datas variam conforme a fonte: a página de história da Prefeitura situa o início do povoado em 1842, com a doação de 100 alqueires da fazenda de José Pinto Caldeira; o site de turismo do município fala na tentativa de formar o patrimônio em 1883. O núcleo não se firmou depois que a família Pinto Caldeira foi morta em um ataque indígena, em 1886. O Cemitério do Lageado, onde a família foi enterrada, é considerado o monumento histórico mais antigo de Penápolis e a única construção que restou daquele primeiro patrimônio.

Primeira casa de Penápolis, construção de madeira preservada sob uma cobertura
Imagem de arquivo (2023): a primeira casa de Penápolis, de madeira, preservada como atração turística. Foto: Barão de Itararé – CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

25 de outubro de 1908: a fundação

A cidade de hoje nasceu de um empreendimento de terras. Segundo a Wikipédia e o site de turismo municipal, o coronel e empreendedor Manuel Bento da Cruz comprou terras públicas em leilão, registrou-as em 1907 no cartório de São José do Rio Preto e passou a vendê-las em pequenos lotes aos pioneiros. O fazendeiro Eduardo José de Castilho, por sua vez, doou em 1906 um lote aos frades capuchinhos para a formação do novo povoado.

Em 25 de outubro de 1908, foi criado o Patrimônio de Santa Cruz do Avanhandava, com a tomada de posse, pelo frei Bernardino de Lavalle, das terras doadas por Eduardo de Castilho, de acordo com a Prefeitura. Os capuchinhos rezaram uma primeira missa e ergueram um cruzeiro no local onde, mais tarde, seria instalado o 1º Grupo Escolar da cidade. Onde ficava o cruzeiro há hoje uma estátua de São Francisco de Assis, padroeiro do município. A data é oficialmente a da fundação de Penápolis, e o brasão da cidade traz a cruz latina em lembrança do nome primitivo, “Santa Cruz do Avanhandava”, e da Ordem dos Capuchinhos.

Pouco depois, em 2 de dezembro de 1908, chegaram os trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, então chamada Estrada de Ferro Bauru–Itapura, que impulsionou o povoamento e passou a escoar o café rumo ao porto de Santos.

Estátua de São Francisco de Assis diante do Santuário São Francisco de Assis, em Penápolis
Imagem de arquivo (2023): estátua de São Francisco de Assis, padroeiro da cidade, diante do santuário em Penápolis. Foto: Barão de Itararé – CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Uma homenagem a Afonso Pena

Em 17 de novembro de 1909, uma lei estadual elevou o patrimônio a distrito de paz do município de São José do Rio Preto, já com o nome de Penápolis, em homenagem ao presidente da República Afonso Augusto Moreira Penna, morto naquele ano. Segundo a Wikipédia, Afonso Pena era um grande incentivador das ferrovias.

Em 1910, o distrito foi transferido para Bauru. A emancipação veio em 22 de dezembro de 1913, pela Lei Estadual nº 1.397, e a Câmara Municipal foi instalada em 11 de maio de 1914. Em 10 de outubro de 1917, a Lei nº 1.557 criou a Comarca de Penápolis, que a Prefeitura descreve como “uma das maiores da região”. Documentos do projeto que deu origem à comarca registram que, em agosto de 1915, o município tinha 2.549.826 pés de café em produção, plantados por 287 proprietários, segundo a Wikipédia.

A “mãe” de municípios

O território original de Penápolis era enorme: abrangia as terras da margem esquerda do Tietê até a foz no Rio Paraná. Dentro dele foram criados os distritos de Birigui (1914), Araçatuba (1917), Promissão (1919), Glicério (1920) e Alto Alegre (1934). Com os desmembramentos, nasceram os municípios de Araçatuba e Birigui (1921), Promissão (1923), Avanhandava e Glicério (1925) e Alto Alegre (1953).

Vista aérea antiga de Penápolis em preto e branco
Imagem de arquivo (data não informada): vista aérea de Penápolis. Fundo documental Correio da Manhã – domínio público, via Wikimedia Commons

Malária, conflitos e a valorização das terras

Os pioneiros enfrentaram a malária, então chamada de maleita, e os conflitos com os indígenas, que resistiam ao avanço sobre seu território. Segundo as fontes municipais, o que elas chamam de “pacificação” dos caingangues ocorreu em 1912, com a ação do então coronel Cândido Rondon, que hoje dá nome à Rodovia Marechal Rondon (SP-300). Depois disso, a procura por terras disparou: o preço do alqueire passou de 13$000 réis em 1910 para 100$000 réis em 1914 e chegou a 1:000$000 em 1925 perto da área urbana. Da cultura dos coroados, restaram peças de museu e a aldeia Icatu, a cerca de 35 quilômetros da cidade.

Vieram também imigrantes de vários países para as lavouras de café e migrantes de Minas Gerais, com a tradição dos engenhos de cana, dos doces, dos queijos e do carro de boi. A cidade ganhou iluminação elétrica em 1917, o primeiro grupo escolar em 1919 e o primeiro ginásio estadual em 1935.

Fotografia antiga de uma família de lavradores em Penápolis, na década de 1930
Família de lavradores em Penápolis na década de 1930. Foto: autor desconhecido – CC0, via Wikimedia Commons

Penápolis hoje

A economia, que começou com madeira, café, pecuária e transporte por carro de boi e trem, hoje tem peso da agroindústria canavieira, além de pecuária, café, um distrito industrial e comércio diversificado. A memória da cidade está no Museu Histórico e Pedagógico, instalado no antigo prédio da Prefeitura, construído em 1930, e no Museu do Sol, apontado como o primeiro museu de arte naïf da América Latina, transferido de São Paulo para Penápolis em 1979. A primeira casa da cidade, de madeira, foi preservada e é uma das atrações turísticas, ao lado das praias do Tietê, da Exposição Nacional de Orquídeas e da cavalgada no dia de São Francisco.

A trajetória de Penápolis também virou literatura: o romance Desamparo, do penapolense Fred Di Giacomo, que retrata a colonização da cidade com realismo mágico, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2019.

Com informações da Prefeitura de Penápolis (páginas História e Símbolos Municipais), do site de turismo do município, do IBGE (Censo 2022) e da Wikipédia (verbete “Penápolis” e suas referências). Fotos: Wikimedia Commons.

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