Análise: hipertensão em 28% das crianças é alerta para famílias e escolas — e as telas fazem parte da conta
Celular com aplicativos de redes sociais (imagem de arquivo, 2021). Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil – CC BY 3.0 BR
Este é um texto de análise, baseado em dados públicos. As interpretações são da redação do Cidade Agora.
Pressão alta costuma ser vista como problema de adulto. Os dados da pesquisa Brasil Coração Saudável, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), mostram que essa imagem está desatualizada: a hipertensão atinge 28,3% das crianças e adolescentes de até 18 anos avaliados, e outros 11,6% têm pré-hipertensão, segundo a Agência Brasil.
A pesquisa avaliou 6.092 estudantes de 38 escolas de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e de São Paulo, entre junho e outubro de 2026. Não é, portanto, um retrato de todo o país — a amostra de São Paulo, por exemplo, teve apenas 60 participantes —, mas o sinal é forte o bastante para merecer atenção.
Peso, sedentarismo e telas
Uma em cada três crianças e adolescentes analisados tem excesso de peso: 19,5% com sobrepeso e 13,6% com obesidade. Entre os obesos, quase metade (48,4%) tem hipertensão, proporção que chega a 60,5% na faixa de 15 a 18 anos. A pressão alta é mais frequente entre meninos de 15 a 18 anos (40,7%) e de menos de 7 anos (39,1%).
Os hábitos ajudam a explicar o quadro: 59% dos estudantes ficam mais de três horas por dia diante de telas — principalmente celular (86%) e TV (80%) —, e 66% fazem apenas de uma a duas horas de atividade física por semana, quase sempre na escola (93%). O cardiologista Álvaro Avezum, coordenador do projeto, aponta a redução da atividade física, a alimentação inadequada e o estresse como fatores que elevam o risco cardiovascular.
O que dá para fazer
A leitura dos números sugere que a resposta passa menos por remédios e mais por rotina. Medir a pressão nas consultas pediátricas, garantir tempo de brincadeira ao ar livre, combinar limites de tela em casa — o que conversa com o debate atual sobre supervisão parental previsto no ECA Digital — e cuidar da merenda e dos lanches são medidas ao alcance de famílias, escolas e prefeituras.
Hipertensão na infância raramente dá sintomas. Por isso, a recomendação mais simples é também a mais importante: medir. Em caso de dúvida, procure a Unidade Básica de Saúde ou o pediatra.
Fontes: Agência Brasil; Sociedade Brasileira de Cardiologia (pesquisa Brasil Coração Saudável).

